Empreendedorismo para poucos

Vão me chamar de demagogo, eu sei. Mais: serei insensível, para uns; populista, para outros. Mas, à parte a velha disputa entre o liberalismo selvagem e o paternalismo social, devemos buscar o verdadeiro sentido do espírito dito empreendedor. Venha comigo!

Sociedade líquida

O ser humano é, naturalmente, empreendedor. Mesmo sem opções, somos capazes de criar possibilidades onde o impossível é o mote e as necessidades não nos deixam em paz. Aliás, paz também é para poucos.

A pirâmide de Maslow é mais tirânica do que nunca, em um tempo em que “sonhos” são comercializados em vídeos sobre métodos mágicos e a tecnologia parece realizar tudo instantaneamente. As máquinas aumentaram nossa sensação de impotência em um mundo onde meros empregos, mais do que trabalhos, nos envergonham em nossa busca por realização pessoal.

Tudo agora é passageiro, temporário, sazonal. Como diria Zygmunt Bauman, tudo é líquido. A fome, o frio, a sede e as ilusões consumistas, não são. Mais que isso: a ansiedade cria angústia na iminência da falta de recursos (dinheiro, moradia, segurança e saúde) para uma vida, rumando para a morte, mais digna. A seguir, dou um exemplo corriqueiro, desses que se repetem mundo afora.

Bolos de pote

Naquela tarde, mais um turno de trabalho se iniciava na unidade de Pronto Atendimento na qual eu recepcionava pacientes (ironicamente, impacientes). O burburinho pelo atraso da médica plantonista escalada tomava conta do ambiente úmido. O falatório ecoava em nossos ouvidos. Eu mal conseguia ouvir o que a moça, diante de mim, no balcão, estava perguntando. Tive de solicitar silêncio da pequena multidão presente.

– Oi, boa tarde! vendendo bolo de pote. O senhor vai querer um? – entendi ela perguntar, finalmente.

Respondi que, infelizmente, eu não poderia comprar, já que eu carregava cartões de crédito e débito na carteira, sem qualquer cédula. Ainda deu tempo de perguntar a ela se ela trabalhava com máquinas de venda por cartão. Ela respondeu, meio frustrada, que não. Aconselhei-a a adquirir alguma dessas máquinas, pois há empresas com taxas acessíveis a vendedores. Os demais profissionais de nossa equipe estavam, todos, em atendimento. Ela ofereceu seus bolos de pote a algumas pessoas que, distraídas, não lhe deram qualquer atenção. A boca do povo só queria comentar o salário da médica, esta que, depois, informou um enorme engarrafamento na rodovia, o que motivou seu atraso.

Todos continuaram tagarelando, indiferentes àquela moça grávida. Sim, só quando a mesma estava na porta, com olhar distante, tentando adivinhar em que local remoto daquele bairro alguém iria comprar seus bolos de pote. Pensei: pode ser que não lhe estivesse faltando comida, mas via, em seu olhar, a angústia pela falta iminente de comida. Com a falta, vem a indignação, sintoma da miséria, ou moral ou material.

O problema da doutrina empreendorista

Mesmo nos EUA, paraíso do empreendorismo moderno (com seu American Life Style), há pobres e miseráveis. A população mendicante e sem teto (homeless people) aumenta a níveis sem precedentes, principalmente na Califórnia, segundo Gaúcha ZH.

O problema do empreendedorismo é ver em cada vão ser humano um indivíduo plenamente capaz de ser bem sucedido, mas diante de padrões importados pela fantasia cinematográfica hollywoodiana. Mas, o que vemos por aí?

Imagem (screenshot) recebida pelo Messenger, de um contato pessoal.

Vemos duas correntes de pensamento, igualmente toscas, disputando as pobres e mulambentas manadas humanas: o liberalismo e o socialismo.

A primeira diz que cada um é responsável por suas escolhas e por seu sustento. Errado? Não. Burrice é a generalização e a tendência a depreciar aqueles que, por razões alheias e/ou desconhecidas, não conseguem prover o próprio sustento. A elite, daí, são os bem-sucedidos empresários, youtubers, artistas e influenciadores. O nivelamento é por cima, pelos mais ricos, mas ricos apenas em grana e em falácias água-com-açúcar.

Os socialistas, esquerdistas e elementos de faunas similares advogam que tudo pertence ao povo. Mas, dentro desse mesmo povo, somente aqueles partidários de sua religião política “progressista” são iluminados. O povo não precisa estudar, mas aprender a defender seus direitos, mesmo à custa de expropriação (via tributação escravagista) de sua riqueza, pelo Estado. O Estado deve dar tudo – uma esmola e um punhado de serviços mal e porcamente executados.

O que sobra?

Ser rico não é garantia de felicidade, essa que é composta de momentos felizes intermitentes. As pessoas confundem opulência com plenitude; riqueza com autossuficiência; ócio indefinido com paz; encargos sem fins com trabalho; Poder com emancipação; orgulho com autonomia. Esquecem – ou melhor, escolhem ignorar – que o tempo passa e a morte é certa. Dentro de qualquer caixão, o presunto tem o mesmo destino.

Aí, a corrida é por fruição e dinheiro, por curtir a vida e esquecer dos que correm, lado a lado, buscando, talvez, as mesmas coisas ou, simplesmente, garantir o mínimo: trabalho, comida, um teto e dignidade para empreender o maior e mais básico dos projetos humanos: a Família.

A atitude mais empreendedora que existe é o abraço. Na iminência da escassez, da fome, da morte, este é a anestesia preferida de 100% dos seres humanos para o sentimento que mais aflige-nos como irmãos em sociedade: o Medo.

Isto, sim, para além de análises parciais e preconceituosas, é o que subjaz necessário a todo o ser humano: a atitude fraterna. Em tempos de caridade da foice e martelo e do empreendedorismo de gibi, a fraternidade universal é algo há muito esquecido. Ser fraterno é ser pioneiro e fazer o que a maioria esmagadora, desde muito, não faz.

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