O Homem, o Templo e o Universo

Segundo a Lei das Correspondências, “o que está acima é como o que está abaixo, e o que está abaixo é como o que está acima”. Assim, tudo, seja superior ou inferior; nos altos Céus, na Terra ou abaixo desta, reflete uma única Verdade, uma Lei viva, que permeia todas as coisas.

Em uma das Cartas de Paulo de Tarso, este diz aos cristãos de Corinto (cidade da Grécia), que “o corpo [humano] é templo do Espírito Santo” (Primeira Carta aos Coríntios, VI: 19). Ora, se nosso corpo é o Templo de Deus, e aquele reflete o que está acima, logo completa-se o sentido do que o Nazareno disse (“o Reino dos Céus está dentro de vós”, Lucas, XVII: 21).

Quando dizemos que o Reino de Deus habita todas as coisas, isso se dá pelo império de sua Lei, que opera sobre cada uma das partículas inteligentes da matéria, seja ela grosseira ou sutil (e tudo é Espírito, e tudo é matéria, qualquer divisão é apenas aparente). Toda substância carrega uma instrução, que é a assinatura do Grande Arquiteto do Universo, aquele Criador que, sendo Palavra (ou melhor, Logos), ordenou todas as coisas [1] pelo Som inefável do Nome Sagrado (que os antigos creem ser Om).

Homem e Templo

Portanto, não seria extravagante demais pensar que o Homem é, em si, um Templo, ao passo que o Templo perfeito deve simbolizar o Universo, Templo e Criação daquele Grande Arquiteto. Logo, completa-se a analogia Homem <==> Templo <==> Universo.

Por essa analogia acima, ao passo que justifica-se o que Paulo também dissera, que “Deus não habita templos feitos por mãos humanas”, pode-se inferir, por outro lado, que, quando um templo é erigido para “a Glória do Grande Arquiteto do Universo” (os jesuítas diriam ad majorem Dei Gloriam), o adorador pode experimentar o sentimento de estar mais perto do próprio Coração da Criação.

Templo e Universo

Quando os homens se reúnem em um templo, pode acontecer de assim fazerem para diversos objetivos: sentirem-se unidos e acolhidos; aliviarem suas Consciências; pedirem auxílio do Alto ou agradecer por bênçãos alcançadas. Mas, há, ainda, o sentido mais elevado: adorar a Deus. E adorar, “em Espírito e Verdade”, significa olhar para si, para o irmão, para o sacerdote e para o Templo, levantar os olhos e enxergar, naquele espaço, uma miniatura da Criação Divina, o Universo.

Catedral de York (Inglaterra): vista aérea. Destaque para a nave em cruz. Fonte: Google Imagens.

No Templo Católico medieval, tal como construído pelos antigos maçons, a nave era em forma de cruz (se vista do alto), simbolizando o signum da Vitória sobre a Morte e a esperança na Ressurreição. Mas, também simbolizava as direções cardeais, os quatro cantos da Terra. As torres apontavam para o Céu, enquanto nós, em terra, poderíamos render graças por sermos os reflexos vivos a serem redimidos nesse vale de lágrimas, dominado por príncipes rebeldes.

Homem, templo Universal

A Loja maçônica é mais clara, nesse sentido. O Venerável Mestre senta-se ao Oriente, de onde vem a Luz do Sol, que nos traz Vida. Junta ao Ocidente, está a porta que dá para o mundo profano, onde imperam os seres em trevas, da Noite. Ao Norte, os poderes obscuros e do atraso; Ao Sul, os que pelejam pela redenção e são as promessas para o futuro. No alto do teto, a abóbada celeste; no subsolo, as câmaras da reflexão do Inconsciente material.

Relativo ao Homem, que é um Templo (ou Loja), a cabeça representa o Oriente, por onde entra a Luz da Vida e do Espírito; seus pés perfazem o Ocidente, ligados ao que é mundano, sensorial, material e impuro; seguimos ao Norte, que simboliza o lado esquerdo do corpo, emotivo e errante, enquanto o Sul nos lembra o lado direito, racional e preciso. Por fim, às costas, que são o sustentáculo e o subsolo, o lado instintivo e primitivo, ao passo que a frente do corpo é aquela que evolui e prospera, enfrenta todas as coisas.

Não nos esqueçamos de que “cada um de nós é um Universo”, citando um verso de Meu Amigo Pedro, de Raul Seixas. Assim, o microcosmo humano foi criado à imagem e semelhança do macrocosmo, o Universo, tipo perfeito do Homem Primordial [2].

“Onde eu deito a cabeça, aí é minha casa”

Há uma música do Metallica que expressa, muito bem, essa interação entre o ser humano e o Universo, como um aprendiz que vive e reina, a partir de um trono de ouro ou de pedra. O Universo é sua casa, e seu corpo é Templo Universal.

Anywhere I roam
Where I lay my head is home

Metallica, in “Wherever I may roam”.

Notas

[1]Cf. Isaías, LXI: 1: “Assim diz o Senhor Deus: ‘O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual seria o lugar do meu descanso?’ “

[2] Em hebraico, Adam Kadmon, o “Homem Original”. No Zohar (Idra Rabbah, 141b), é dito: “A forma do homem é a imagem de tudo o que está acima [no Céu] e abaixo [na Terra]; portanto, o Santo Ancião [Deus] o selecionou para a Sua própria forma“. Leia mais: Adam Kadmon na Wikipedia.

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