Ausência (Vinícius de Moraes)

Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como uma nódoa do passado.
Eu deixarei … tu irás e encostarás
a tua face em outra face

Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei a minha face
na face da noite e ouvi a tua fala amorosa

Porque meus dedos enlaçaram os dedos
da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência
do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém
porque poderei partir
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.

Código Secreto do Imperador romano Augusto

Em primeiro lugar, gostaria de inaugurar esta seção, dizendo que já me utilizei muito da in-utilidade neste post descrita. No livro Eu, Cladius, Imperador, de Robert Graves, o autor menciona brevemente, um código utilizado por César Augusto, imperador de Roma, o primeiros dos 12 Césares, e sua mulher Lívia Bruaca Augusta, em correspondências sigilosas acerca de ngócios escusos com o dinheiro público e negociatas com magnatas da época, incluindo senadores. Be, desnecessário dizer porque a civilização ocidental é tida como herdeira cultural de Roma, mais flagrantemente a “civilização brasileira.

Esse é um código virtualmente indecifrável por pessoas que não possuam sua chave. Eu sempre utilizei para anotações confidenciais, na maior parte das vezes, quando queria falar mal de minhas namoradas, das namoradas dos outros e desses outros.

Imagine que você quer codificar um texto. A esse, chamo máquina ou fechadura. E você precisa de um padrão ou mecanismo pra codificar e depois decodificar (a ser usado por uma só pessoa ou mais de uma, ou mesmo um grupo). A isso, denomino alavanca ou chave.

Agora tenha em mente o alfabeto, e suas letras representadas por valores numéricos sequenciais, tais como A=1, B=2, C=3, etc.
Depois de ter a máquina em mãos, você deve criar uma chave personalizada para destravá-la. Deve ser conhecida apenas, obviamente para os fins propostos, pelas pessoas autorizadas. A chave deve ser uma frase que possa ser de conhecimento do grupo e fácil a ele de reconhecer. Uma frase ou uma sequência numérica.

Vamos escrever então a tabela das letras-número:

A=1 B=2 C=3 D=4 E=5 F=6 G=7 H=8 I=9 J=10 K=11 L=12 M=13 N=14 O=15 P=16 Q=17 R=18 S=19 T=20 U=21 W=22 X=23 Y=24 Z=25 Outros casos –>> Ã=27 Ç=28 Õ=29.

–Exemplo Prático—

Máquina:
–>> DEUS ME AJUDOU E EU GANHEI DINHEIRO. (Herói da canastrice legislativa brasileira, João Alves)
Alavanca:
–>>DEUS É BRASILEIRO.

Depois, coloca-se a máquina encima e a alavanca embaixo, letra embaixo de letra, eliminando-se os espaços. Quando a alavanca acaba, repete-se ela até a última letra da máquina.

D E U S M E A J U D O U E E U G A N H E I D I N H E I R O
.
D E U S E B R A S I L E I R O D E U S E B R A S I L E I R

Atribui-se os valores numérico a cada letrana parte de cima e na parte de baixo. Valor sobre valor, diminui-se (valores em azul são os resultados das subtrações, ou seja o próprio código completo):

/4. 5. 21. 19. 13. 5. 1. 10. 21. 4. 15. 21. 5. 5. 21. 7. 1. 14. 7. 5. 9. 4. 9. 14. 8. 5.
9. 18. 15./
/ 4. 5. 21. 19. 5. 2. 18. 1. 19. 9. 12. 5. 9. 18. 15. 4. 5. 21. 19. 5. 2. 18. 1. 19. 9.12.
5. 9. 18./


/0. 0. 0. 0. 8. 3. -17. 9. 2. -5. 3. 16. -4. -13. 6. 3. -4. -7. -12. 0. 7. -14. 8. -5. -1. -7.4. 9. -3./

As frases tem separação entre palavras por meio de barras. Pontos finais, de exclamação, interrogaçetc., são postos fora, entre as barras. Toda frase começa com duas barras e termina também com duas barras.

–>>Decodificando:

É só aplicar o processo inverso, colocando-se o código completo encima, e somando aos valores da chave, número sobre número. Aos resultados, deduz-se as letras do texto original.

Eu digo que esse padrão de código o torna indecifrável porque, embora se conheça o padrão em si de funcionamento, a chave em si é totalmente aleatória. Se a pessoa que está codificando for suficientemente cuidadosa para não formular uma chave que se relacione com ela diretamente e sim, é claro, uma que seja impessoal, o código se torna o mais fechado e perfeito que conheço, desde que a chave não seja descoberta. A cada letra “a” pode-se atribuir e resultar em um valor numérico codificado diferente, um número 1 ou 15, etc, pois que o “a” vai ter um valor diretamente ligado à letra-número que lhe é correspondente, na sequência de codificação pela chave. No exemplo acima, a primeira letra “e” foi codificada como “0” (zero), enquanto a segunda, na sequência, ficou “3”… E assim por diante… O que determina o código, na codificação e na decodificação é a chave.

Versos Íntimos (Augusto dos Anjos)

Eu sempre fico emocionado quando leio esse clássico. Me inspira não um desespero, mas um sentimento de fatalismo valente, daqueles que só os fortes exprimem quando estão se despedindo da vida. Eu, se estiver consciente logo antes de minha passagem deste lado para o outro lado da Vida, quero declamar esses versos intimamente perpétuos:


Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!